Desabafo Conscientizador

on quarta-feira, 4 de setembro de 2013
"De novo olhei e vi toda a opressão que ocorre debaixo do sol:
Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console. Por isso considerei os mortos mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver! No entanto, melhor do que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não viu o mal que se faz debaixo do sol.
 Descobri que todo trabalho e toda realização surgem da competição que existe entre as pessoas. Mas isso também é absurdo, é correr atrás do vento." Eclesiastes 4:1-4
Já faz algum tempo que eu desejava criar um blog, algo despretensioso mas ao mesmo tempo muito pretensioso, algo como um desabafo conscientizador. Mas seria apropriado a temática deste blog começar com uma passagem bíblica por mais que eu seja um cristão praticante? Sim, especialmente no caso desta passagem.

O Livro do Eclesiastes é um livro que tradicionalmente era atribuído ao rei Salomão, lembro de ter ouvido uma vez de um pastor falando que para entender a temática de cada um dos livros que tiveram sua autoria atribuída ao rei Salomão basta observarmos em que época da vida de Salomão supostamente eles poderiam ter sido escritos, com o livro do Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão) tendo sido escrito em sua juventude apaixonada, os Provérbios na meia-idade e o Eclesiastes já quando ele era um idoso desiludido com o mundo. Seja lá quem for o real autor a sabedoria do livro mais mal-humorado da Bíblia (Como sugerido pelo título do livro escrito pelo pr. Ed René Kivitz) é bem fascinante.


Talvez por loucura, talvez por acreditar em um chamado divino, talvez por acreditar na função social do que faço ou talvez até mesmo por tudo isso junto eu aceitei a estressante e complicada vida de um professor que quer realmente servir na transformação de vidas tanto com minha profissão quanto com atividades fora dela. Se algum colega de profissão dedicado ler este trecho das escrituras deve começar a pensar de cara que ao invés de escrito pelo Rei Salomão (o que já é descartado por boa parte dos teólogos) pudesse ter sido escrito por um professor ou ao menos alguém que conseguiu tal como Rui Barbosa traduzir nosso sentimento diário:


"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."


Normalmente a população não consegue entender o cruel sistema educacional, especialmente na rede pública de ensino (embora tirando talvez os colégios de referência a situação não esteja tão melhor assim na rede privada). Diariamente o professor é pressionado, sua autoridade é mutilada, é tratado como o lixo do lixo: Se houver uma agressão na escola cometida por um aluno logo os "iluminados" das secretarias de educação e outros órgãos INcompetentes dirão que era por falta de domínio de turma, se ele impedir uma agressão (contra o professor ou contra outro aluno) ele poderá responder criminalmente. Cobram dele um ensino de qualidade mas sem lhe dar em muitas escolas nem se quer um quadro negro, aliás falando em qualidade isso significa passar em provas pois reprovar um aluno em algumas redes é uma tarefa mais difícil do que transformar alquimicamente a palha em ouro. Enfim seriam tantas situações ridículas diárias (melhor nem falar em diárias pois os diários de classe além de serem métodos obsoletos de registro nada mais são do que um grande faz de conta pois nunca correspondem a realidade) desde o professor ser obrigado a fazer inúmeras coisas como impedir o uso de celulares em sala de aula ou garantir que os alunos fiquem em sala de aula mas ao mesmo tempo sendo proibido de fazer qualquer outra coisa a não ser implorar para que os alunos o façam (Viramos mendigos e não foi por conta do salário ultrajante).


Palavras tão verdadeiras quanto as do suposto rei Salomão só vi numa cerimônia da Ordem DeMolay chamada de cerimônia das luzes: 

"Mas nós vivemos uma época turbulenta, quando o tumulto está em nossa pátria; quando os baluartes do livro sagrado e dos livros escolares estão em perigo de afundar no turbilhão da dúvida e incerteza; quando estes sete gloriosos preceitos não são os mais cobiçados modelos sobre os quais se baseia a vida; quando a confiança, a justiça e a fraternidade não são consideradas as qualidades mais virtuosas." 

É talvez esse blog venha lavar a alma de algumas pessoas e seja conscientizador para outras... Mas se não servir como um blog terapêutico conscientizador ao menos poderá me fazer me sentir como o autor de Eclesiastes deve ter se sentido na época.

3 comentários:

Unknown disse...

Gostei muito!
Super interessante e coerente.
Vou entrar sempre!
Bom domingo e boa semana de trabalho!

Torres Neto disse...

É isso! Parabéns pelo blog. Estou ansioso pelas próximas postagens.

alinethiodo disse...

Achei seu blog muito interessante.Sou da rede municipal de Valença e também trabalho há três anos da rede estadual.Desta forma, acompanho de perto a situação da educação e pior, vejo que o povo esta conformado, aceita tudo com naturalidade e não por seus direitos mais básicos. Também concordo com sua observação em relação a rede particular de ensino, vejo uma multiplicação de escolas que pagam pouco, reduzem pessoal e fazem com que o professor exerça funções como limpeza por exemplo.Os mesmos ficam sobrecarregados, não conseguem exercer sua verdadeira função de forma satisfatória e ainda por cima são mal remunerados.

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